Quando o cabelo começa a cair, afinar, quebrar ou apresentar mudanças que antes não existiam, uma das primeiras perguntas costuma ser: “O que eu passo no cabelo?”
Talvez essa não seja a primeira pergunta que deveríamos fazer. Antes de escolher um shampoo, uma loção, um suplemento ou qualquer procedimento, precisamos entender o que está acontecendo. E é justamente nesse universo que entra a tricologia.
Afinal, o que é tricologia?
A palavra tricologia tem origem no grego thrix, que significa cabelo, e logos, estudo. Em termos simples, é a área dedicada ao estudo dos cabelos e do couro cabeludo. Na prática, porém, esse universo é muito mais amplo.
O cabelo possui um ciclo biológico, e o folículo piloso passa por diferentes fases de crescimento, transição e repouso. Genética, idade, alterações hormonais, processos inflamatórios, condições do couro cabeludo, estado nutricional, medicamentos e acontecimentos fisiológicos estão entre os diversos fatores que podem interferir nessa dinâmica.
Por isso, queda de cabelo não deveria ser tratada como uma queixa única. O que a pessoa enxerga no espelho pode ser apenas a manifestação final de uma história que precisa ser investigada.
Quando “meu cabelo está caindo” não é informação suficiente
Imagine três pessoas dizendo exatamente a mesma frase: “Meu cabelo está caindo.”
Uma percebe queda intensa há poucos meses. Outra quase não observa fios caindo, mas nota que o cabelo está progressivamente mais fino e o couro cabeludo mais aparente. Uma terceira apresenta queda acompanhada de coceira e descamação.
A frase é a mesma. Os sinais e as histórias, não. E a condução também não deveria ser.
A literatura científica reconhece que a avaliação das queixas de perda capilar exige uma abordagem sistemática, considerando histórico, exame e características capazes de diferenciar alterações dos cabelos e do couro cabeludo. É justamente por isso que abordagens padronizadas, utilizadas indiscriminadamente, podem ser insuficientes.
O que faz um tricologista?
O tricologista direciona seu estudo e sua prática profissional especificamente para os cabelos e o couro cabeludo. Em uma avaliação tricológica bem conduzida, não se observa apenas se o cabelo está caindo.
É preciso compreender quando a alteração começou, como evoluiu, quais são as características dos fios, os hábitos capilares, procedimentos químicos, rotina de cuidados e outros fatores que possam estar relacionados à queixa apresentada.
O couro cabeludo também traz informações importantes. Descamação, sinais inflamatórios, diferenças no calibre dos fios, quebra, redução aparente de densidade ou áreas específicas mais comprometidas ajudam a construir um mapa daquela condição capilar.
E uma das ferramentas que ampliaram significativamente nossa capacidade de observar esse cenário é a tricoscopia.
Tricoscopia: enxergar aquilo que os olhos não conseguem ver
A tricoscopia é uma técnica não invasiva de avaliação ampliada dos cabelos e do couro cabeludo. Por meio dela, estruturas que dificilmente seriam avaliadas adequadamente a olho nu tornam-se visíveis.
A literatura científica descreve sua utilidade na observação das características dos fios, unidades foliculares, padrões vasculares e pigmentares e alterações do couro cabeludo. Determinados achados podem contribuir para diferenciar e acompanhar diferentes condições capilares.
Isso significa que uma imagem ampliada não é simplesmente uma “foto do couro cabeludo”. Ela contém informação — e informação precisa ser interpretada.
Tricologista, dermatologista e cabeleireiro: por que não são a mesma coisa?
Essa diferença precisa ser compreendida sem criar uma disputa entre profissões.
O cabeleireiro possui papel fundamental na estética, no corte, na coloração, na transformação e no manejo cosmético da fibra capilar. O tricologista direciona sua formação e seu olhar para cabelos e couro cabeludo, podendo atuar na avaliação tricológica, no acompanhamento das alterações capilares e nos cuidados compatíveis com sua formação profissional.
Já o dermatologista é médico especialista em pele, cabelos e unhas. Quando existem sinais que exigem investigação médica, diagnóstico de doença, prescrição medicamentosa, exames ou procedimentos privativos da medicina, sua atuação é indispensável.
O profissional preparado não precisa ultrapassar os limites da própria atuação para demonstrar conhecimento. Saber reconhecer até onde vai a própria competência — e quando outro profissional precisa participar — também é especialização.
A saúde capilar se beneficia muito mais da integração entre profissionais do que da competição entre eles.
A diferença entre olhar e saber o que observar
Cabelo é uma área extremamente específica. Afinamento não é sinônimo de quebra. Quebra não é sinônimo de queda pela raiz. Descamação não deve ser automaticamente chamada de “caspa”. E diferentes formas de perda capilar podem apresentar comportamentos completamente distintos.
Algumas alterações podem ser reversíveis; outras, progressivas. Em determinadas alopecias cicatriciais, por exemplo, pode ocorrer destruição permanente dos folículos, o que torna especialmente importante reconhecer sinais suspeitos e realizar o encaminhamento adequado.
Por isso, uma avaliação não deveria servir apenas para decidir o que fazer. Ela também precisa ajudar a decidir o que não fazer.
Tricologia não deveria ser sinônimo de protocolo
Um dos equívocos que observo é transformar a terapia capilar em uma sequência automática de procedimentos: uma pessoa chega com queda, outra com afinamento, uma terceira com alterações no couro cabeludo, e todas recebem a mesma condução. Mas pessoas diferentes não trazem histórias iguais.
Tecnologias, cosméticos e procedimentos podem ser ferramentas valiosas quando corretamente indicados e utilizados dentro das atribuições de cada profissional. Nenhuma ferramenta, porém, substitui raciocínio e individualização.
Na minha prática, considero que antes de estimular é preciso avaliar. Antes de escolher uma técnica, precisamos compreender o cenário que temos diante de nós. ]
Existe uma pessoa antes do cabelo
Depois de mais de 20 anos trabalhando com terapia capilar e tricologia, uma das maiores lições que aprendi é que as pessoas raramente chegam trazendo apenas cabelos. Elas trazem preocupação, expectativas, medo de piorar e histórias. Algumas chegam depois de experimentar inúmeros produtos e procedimentos sem sequer compreender exatamente o que estava acontecendo.
Por isso, acredito que a tricologia precisa unir duas coisas que jamais deveriam estar separadas: conhecimento e cuidado.
A tecnologia pode ampliar uma imagem. A tricoscopia pode revelar estruturas que nossos olhos não enxergariam. O conhecimento nos ensina a interpretar sinais. Mas nenhuma lente substitui a capacidade de escutar quem está sentado à nossa frente.
Ser tricologista, para mim, não significa simplesmente trabalhar com cabelos. Significa dedicar-se a compreendê-los, saber observar, investigar e cuidar, e também reconhecer quando é necessário integrar outros profissionais ao atendimento.
Porque o cabelo pode parecer apenas uma pequena parte do corpo. Para quem está perdendo o seu, entretanto, ele pode representar muito mais. E é justamente por isso que merece ser tratado com conhecimento, responsabilidade e respeito.
SOBRE A AUTORA
Hérika Olliveira é tricologista, perita tricológica e terapeuta naturopata, com mais de 20 anos de atuação na área capilar. Atua com avaliação e acompanhamento de alterações dos cabelos e do couro cabeludo, além de desenvolver atividades como educadora, palestrante e consultora.